Maria Berenice Dias

O afeto merece ser visto como uma realidade digna de tutela.

Categoria: ARTIGOS, Violência doméstica

Amor ou ódio?

Maria Berenice Dias[1]

 

Antes da Lei Maria da Penha todos perguntavam: por que uma lei contra a violência doméstica? Treze anos depois, uma triste constatação enseja outro questionamento: por que o lar é o lugar mais perigoso para uma mulher?

Os chamados crimes passionais – que de paixão nada tem – lotam presídios.

A incidência assustadora destes delitos mostra o verso e reverso de uma mesma moeda.

A resposta é uma só: a facilidade com que o amor vira ódio.

A motivação desta verdadeira carnificina é punir quem foi responsável pelo fim do sonho do amor eterno. A frustração da promessa de uma felicidade a qualquer preço.

A insuportabilidade da dor leva ao desejo de provocar dor no outro. E o desejo de vingança não tem limite.

O desalento do desamor supera todas as fronteiras.

Mas o que mais surpreende é que os números só aumentam.

A motivação é de duas ordens. A divulgação do aparato de apoio às vítimas, acaba encorajando as denúncias. O que é positivo.

Mas há outra causa absolutamente negativa. O conservadorismo que vem se alastrando na sociedade. Invocações de ordem religiosa provocam enorme retrocesso a tudo o que tem sido construído na tentativa de resgatar a cidadania feminina.  Acaba se tornando difícil convencer a mulher de que ela não precisa usar roupa rosa; não tem que obedecer ao marido; não nasceu para ser mãe e que este não é seu papel mais especial.

Claro que todas estas assertivas, vindas da titular do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, acabam fragilizando as mulheres e incentivam os homens a resgatar o domínio exclusivo sobre a entidade familiar.

A especial proteção conferida à estrutura reconhecida constitucionalmente como a base da sociedade encoraja o homem a mantê-la a qualquer preço. Para isso se acha no direito de cobrar obediência, impor comportamentos com a ferramenta que sempre acreditou ser a prova de sua superioridade: sua força física!

 

 

Publicado em 07/08/2019.

[1] Advogada

Vice-Presidente Nacional do IBDFAM

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